Boas vindas à todos!

Esta é a iniciativa de três professores de Psicologia (e cinéfilos), que passavam horas no whatsapp comentando inúmeros filmes, indicando novas (ou velhas) obras cinematográficas. Buscamos com este blog compartilhar com todos os interessados nossas indicações e opiniões, claro que bastante recheadas de visões psicológicas!


Caso se interesse pelo filme que indicamos, recomendamos que você assista o filme e retorne ao nosso texto, se possível comentando, concordando ou não com nossas opiniões, e claro dando as suas próprias!


Você é bem-vindo a participar com a gente!

domingo, 11 de dezembro de 2016

Boa noite, mamãe.

Um dia desses, estava eu pesquisando filmes nessas listas de "filmes para psicólogos" ou "filmes imperdíveis para quem gosta de psicologia" e me deparei com uma lista de 20 filmes criadas por um site. 
Entrei na página e um dos filmes me chamou muito a atenção. Era o 18º título - chamado: Boa noite, mamãe (ou Ich seh, Ich seh). É um filme austríaco de 2014.
Na sinopse dizia que se tratava de uma história em que a mãe, após ficar alguns dias ausente devido a cirurgias plásticas, não é reconhecida pelos filhos gêmeos de 9 anos. As crianças desconfiam da mulher e nada será como antes. 


Trailer: Boa noite, mamãe.




Atenção 1: Se você deseja assistir ao filme, sugiro que não prossiga com a leitura pois há SPOILERS).
Atenção 2: Esse filme pode ser considerado suspense para alguns e terror para outros. Depende das perspectivas pessoais. 
Atenção 3: Tem muitos mistérios no filme e você pode optar por "explicá-los ou entendê-los" a partir da psicologia ou a partir daquilo que lhe for mais satisfatório. 

Eu optei pela psicologia para poder abordar temas importantes como: trauma, encontro, separação, morte psíquica e infância.
Algo aconteceu com essa família, com todos os membros: filhos e mãe (o pai não aparece no filme).
O filme inicia com os irmãos brincando juntos e então avistam a mãe chegando (que estava ausente devido às cirurgias).
Eles correm para reencontrá-la, na expectativa de rever a mãe.  E a cena que segue é surpreendente (pela atuação desses pequenos atores) e pela sensação despertada: "não parece" a mesma mãe. As crianças a estranham. Ela está com o rosto inteiramente coberto por faixas. Os olhos e a voz poderiam salvar-lhes daquela estranheza, mas parece que não acontece, além de ficar implícito de não ser só isso.

Ao longo do filme, a sensação transmitida é que aquela mãe está morta, na realidade, morta psiquicamente (no sentido de André Green de morte). Parece que algo lhe aconteceu que lhe desvitalizou, que lhe tirou a vitalidade.
O que será que aconteceu na história dessa família, que a essa mãe foram necessários reparos concretos e externos?

Os meninos, se questionam se ela é mesmo a mãe deles, e buscam a todo momento por sinais que indiquem que é ou não ela. Essa busca é desesperadora. Parece a busca pelo reencontro. Aquela busca por algo que foi perdido e que é necessário reencontrar para sobreviver, ou mesmo para não enlouquecer.

Outra sensação de incomodo é que a mãe parece preferir um dos filhos (Elias), pois se reporta muito mais a ele, se dirige somente a ele, enquanto o outro (Lukas) fica, na maioria das cenas, atras de Elias, em segundo plano. A mãe não menciona seu nome, parece ignorá-lo durante a maior parte do filme.



Os meninos têm pesadelos com essa mãe. Em uma cena, eles ouvem uma gravação da voz da mãe e ficam comparando com a voz a atual mãe e não acreditam que aquela, pós-cirúrgica é, de fato, a mãe deles, afinal na gravação ela está amorosa, carinhosa, cheia de vida. 

Eu não gostaria de detalhar mais o filme, na realidade, me parece que é necessário assistir para entrar em contato com o desespero desses meninos.

Contudo, faz-se necessário destacar que o desencontro acontece em todas as nossas relações. Em alguns momentos estamos desencontrados de nossos pares (sejam os pais, os parceiros, os amigos, analistas ou psicoterapeutas, e até de nós mesmos), e esse desencontro pode levar a muitos caminhos: inclusive a saltos de desenvolvimento, porém, aqui vou destacar o outro lado. Aqui, destaco o caminho da solidão, do desespero, do medo pois é como se não houvesse um outro para te nortear, outro que compreendesse o que está acontecendo, não há o reconhecimento de si no outro. Podendo chegar a loucura, quando aliado a um trauma (como é o caso do filme). 
No filme há um evento traumático que, supostamente, leva a irromper a situação.


Teoricamente, é possível destacar como alguns desencontros acontecem. Ouvimos falar da dificuldade de fazer contato, de compreender sinais e pedidos, quando a comunicação não acontece. Inclusive entre a mãe e o bebê. As vezes as dificuldades aparecem até mesmo em manifestações físicas, em impossibilidades emocionais, em indisposições e falta de espaço para abrigar ou receber o outro, ou o que o outro traz, apresenta ou oferece. 
Não há o enamoramento, ou seja, o enlace entre as partes (sejam elas quais forem), não há a possibilidade do recebimento. E isso não é inato não.....é construído entre os seres em constantes trocas. Mas se não houver a disposição e a disponibilidade para tal, ou ela deverá ser desenvolvida ou, se foi, perdida, pode ser resgatada. 

Alguns autores abordam esse encontro e desencontro. Entre eles podemos citar Winnicott e Lacan.

O mito de Eros e Psiquê também fala da dificuldade que essas entidades passam para então encontrar-se. O que se dá com a ajuda dos Desus maiores Zeus e Vênus.

O que acontece no filme chega a uma situação limite. Tanto para a mãe, que não encontra amparo e compreensão para sua dor. Tanto para o filho que, no desespero do desencontro, chega a tomar atitudes desenfreadas em busca da sua "verdadeira mãe". É realmente impactante.

Não vou dizer-lhes que acontece no filme é possível de ser evitado, nem posso. Contudo, vale muito pensar como é importante tentar buscar por amparo quando o desencontro acontece, pois é possível sim, reencontrar.

Ademais, minha intenção maior é sugerir um filme intrigante e que me chamou tanto a atenção, que gostaria de compartilhar com vocês!
E tentar dar vida ao blog novamente.
=)

terça-feira, 26 de julho de 2016

Desenvolvimento Sexual e Caráter: Monica Geller (Seriado Friends)



Pessoal, estou postando aqui para vocês o ótimo trabalho de análise realizado pelos alunos do 3ºB do Centro Universitário UNIFAFIBE, que se apoiaram na teoria da sexualidade de Freud para analisar o comportamento de Monica Geller, personagem do seriado Friends.

Alunos:  Andreza Spagnol; Bruna Marques Gil; Fausto Lucas; Isabela Pironi; Karla Pineli;
Rodrigo Aquilini.


Desenvolvimento sexual e caráter: Voldemort

Olá a todos! Estou postando aqui para vocês o ótimo trabalho realizados pelos alunos do 3ºA (2016) da turma de Psicologia do Centro Universitário UNIFAFIBE. Eles analisaram, com base na teoria da sexualidade de Freud, o caráter do personagem Voldemort, da série de filmes Herry Potter.

Alunos: Bruno Balbi; Dara Rodrigues; Izabel Belloti; Karoline Scarlet; Pâmela D`arc Genovez; Talita Nogueira.




"As consequências dos nossos atos são sempre tão complexas, tão diversas, que predizer o futuro é uma tarefa realmente difícil." (J.K. Rowling em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban).

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Desenvolvimento Psicossexual e formação de caráter: Homer Simpsons

O texto a seguir é a publicação do trabalho melhor pontuado realizado por um grupo de alunos que cursam o terceiro ano de Psicologia no Centro Universitário UNIFAFIBE. A proposta apresentada a eles era fazer uma análise que relacionava o desenvolvimento psicossexual, tal como proposto por Freud e complementado por Abraham, com determinados traços de caráter, em um determinado personagem fictício. Acompanhem a ótima análise feita de Homer Simpsons, em seu mundo recheado de Duffs e Donuts!



DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL E FORMAÇÃO DE CARÁTER

Autores: Ana Carolina Vicente, Andrea Schenten, Bruna Oliveira, Hypia Sanches, Janaína Matos Nascimento, Jéssica Bruna Baptista, Jonas Nobre


  1. INTRODUÇÃO 
O presente trabalho tem por objetivo discutir a teoria do desenvolvimento psicossexual proposta por Freud, e analisar as possíveis influências de eventuais fixações de energia libidinal em alguma das fases descritas – fase oral, fase anal e fase fálica – na formação da personalidade de um indivíduo, a partir de exemplo fictício.O material analisado será “Os Simpsons”, uma série televisiva animada criada por Matt Groening, nos Estados Unidos. Em específico, serão analisadas as características do personagem Homer Simpson e que fixações ele apresenta, de acordo com a teoria apresentada por Freud.

  1. OBJETIVOS

  • Compreender a divisão das fases e suas possíveis fixações;
  • Analisar a consequência dos eventos dessas fases que implicam no restante da vida do indivíduo;
  • Associar uma das fases com um exemplo fictício.

  1. A TEORIA DO DESENVOLVIMENTO LIBIDINAL E A FORMAÇÃO DE CARÁTER

A teoria do desenvolvimento libidinal de Freud prescreve que determinadas características de personalidade dos indivíduos dependem dos seus objetos de amor e/ou sexuais. Impõe-se assim, a necessidade de se entender o processo de desenvolvimento psicossexual para compreender a formação do caráter.
Freud traz o conceito de libido como sendo uma energia psicossexual presente em todo ser humano desde o nascimento, e o direcionamento dessa libido é o que explicaria os fenômenos psicossexuais. A pulsão é o impulso que busca por satisfações por meio de estimulação das zonas erógenas, que são partes do corpo que causam excitação sexual, e a pulsão é responsável por direcionar essa libido para algo ou alguém. 
      Para Freud, o desenvolvimento da sexualidade passa pelas seguintes fases: oral, anal e fálica, visando o amadurecimento sexual. Caso haja alguma fixação nessas fases, o indivíduo desenvolverá traços de personalidade próprios de cada fase.
Na fase oral, o bebê busca prazer através da estimulação da cavidade bucal em conjunto com a língua e com as regiões circunvizinhas. O principal objeto de satisfação de prazer nessa fase é o seio materno, pois essa estimulação acontece por meio da amamentação.
Durante a fase anal, o prazer infantil é experimentado na evacuação. É nessa fase que a criança aprende a controlar os esfíncteres e essa atividade de manipulação fecal é prazerosa, pois ela sente que tem domínio sobre o próprio corpo. Além disso, quando a criança está desenvolvendo a habilidade de controle das necessidades fisiológicas, ela recebe uma atenção especial dos pais e/ou cuidadores.
Na fase fálica, as crianças passam a ter consciência das diferenças sexuais. O principal objeto de busca de prazer são os genitais (pênis e clitóris) e é nessa fase que se iniciam as primeiras atividades masturbatórias.

3.1 O CARÁTER ORAL

A fase oral é marcada por duas atividades principais: succionar e morder. Na primeira, o sujeito tem o desejo de incorporar o objeto que lhe causa o prazer oral, no caso o seio. Mais tarde, com o aparecimento dos dentes, o prazer de succionar o seio é substituído pelo prazer da mordida. Dessa forma, o sujeito tende a triturar o objeto de prazer através da mordida para depois incorporá-lo.
Pode-se dividir em dois tipos à fase oral:

a)    Fase oral receptiva: ligada a atividade de sucção. A relação do bebê com o seio nessa fase é de passividade, sendo então caracterizada por um desejo violento e imediato, pois sem a mãe a criança se sente impotente. Em contrapartida, quando há a obtenção do seu objeto de prazer oral há também o sentimento de onipotência por ter atingido a satisfação do seu desejo. Se nessa fase a criança não tiver nenhum tipo de privação, o indivíduo terá caráter otimista e generoso, pois é como se o seio da mãe estivesse sempre farto de leite e terá uma obtenção de prazer muito grande. Em contrapartida, se houver frustrações, o indivíduo terá no seu caráter traços de pessimismo, ressentimento e de isolamento, pois há a sensação de que seus desejos não foram satisfeitos.

b)    Fase oral-sádica: ligada a atividade de morder. Nessa fase, o bebê usa a mordida como forma de incorporação do seio da mãe, querendo-o para si. O caráter do indivíduo fixado nessa fase é de busca por cuidado, mas ele acredita que só conseguirá isso caso prejudique alguém. Além de estar sempre insatisfeito com as coisas que possui, o indivíduo tende à atitudes destrutivas e de ódio, pois ele tem a sensação de que precisa se vingar das frustrações que o seio materno lhe proporcionou durante a infância.

  1. RESUMO DA SÉRIE DE ANIMAÇÃO

The Simpsons (Os Simpsons) é uma série de desenho animado, criada pelo americano Matt Groening. Segundo o site Wikipédia, a série surgiu inicialmente como um curta em 1987, mas após três temporadas de sucesso passou a ser um programa de televisão. Desde sua estreia na TV em 1989, Os Simpsons é uma das séries dos Estados Unidos com mais duração e já está em exibição a 27ª temporada, sendo que em 2007, foi transformada em filme e arrecadou milhões de dólares.
A série, voltada para o público jovem e adulto, mostra uma visão irônica e satírica da sociedade americana contemporânea por meio dos acontecimentos do dia-a-dia de uma família. O autor Matt nomeou os personagens de acordo com os nomes de sua própria família, substituindo apenas o seu nome por Bart.
A família da série é composta por cinco personagens: Homer e Marge, o pai que trabalha em uma Usina Nuclear e sua esposa dona de casa. O casal tem três filhos: o mais velho é Bart, um garoto rebelde de dez anos; Lisa, uma menina de oito anos que toca saxofone e Maggie, que ainda é uma bebê. Além deles, ao longo dos episódios também aparecem outros personagens, como, por exemplo, professores, amigos, parentes, vizinhos e celebridades. A família Simpsons possui dois animais de estimação: um cachorro chamado Ajudante de Papai Noel e um gato que atende pelo nome Bola de Neve.

5.    DISCUSSÃO


Conforme o material analisado, o personagem Homer Simpsons apresenta fixações na fase oral. Na série ele é representado como um pai de família alcoólatra, guloso, individualista, ciumento e, devido a sua insatisfação com as coisas que possui, está sempre reclamando.
Na totalidade dos episódios da série, ao observarmos Homer fisicamente, é notório que ele está acima do peso e que é um indivíduo sedentário. Isso mostra sua tendência para a gula e sua compulsão por bebidas, pois em vários episódios, Homer aparece bebendo cerveja ou comendo os famosos donuts, que são pequenas rosquinhas, populares nos EUA.
No 1º episódio da 21ª temporada, denominado “Homer, a baleia”, o personagem é colocado no elenco de um filme de Super-herói, e para atuar, precisa seguir à risca uma maratona de exercícios e uma dieta que um treinador fitness prescreve para ele. Em uma conversa o treinador pergunta “Homer, você sabe porque você come?”, e ele indaga como resposta “Seria porque estou engolindo minhas frustrações e decepções?”, essa fala de Homer evidencia que ele recorre à comida como forma de obtenção de prazer por não possuir recursos psíquicos para lidar com as dificuldades que ele encontra no seu cotidiano. Após dias de treino, Homer consegue emagrecer, mas no final do episódio ele já está gordo novamente, pois não resiste à sua inclinação para a comida e continua recorrendo à este meio como forma de satisfação pessoal.



Outro ponto a ser analisado no personagem é o alcoolismo. No episódio 16, “Vai uma loura geladinha?” da 4ª temporada, Homer dirige bêbado e acaba sendo detido e tendo sua carteira de habilitação caçada. Como forma de punição, ele é obrigado à frequentar as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Durante a primeira reunião quando ele se apresenta, o responsável pelo grupo diz “Homer, aqui com a nossa ajuda você jamais voltará a beber”, diante disso, a reação do personagem é de pavor e ele grita “NÃÃÃÃÃO!” e pula pela janela. Essa cena mostra claramente a dependência de Homer com o álcool. Grosso modo, pode-se julgar, a importância que o personagem dá a recorrência de objetos à boca como forma de prazer e fica evidente sua fixação na fase oral.



O pessimismo de Homer é mostrado fortemente em “A Odisséia de Homer” 3º episódio da 1ª temporada, onde ele perde seu emprego na Usina Nuclear por ficar o tempo todo comendo dunots ao invés de trabalhar. Quando Lisa mostra ao pai os anúncios de jornal com vagas de emprego, ele declara “Eu nunca fiz coisa alguma de valor na droga da minha vida! Eu sou um nada, sem serventia” e no decorrer do episódio, há cenas de Homer no bar bebendo. Há também uma cena em que ele está sentado no sofá de casa e na TV passa o comercial da cerveja Duff, Homer desliga a TV e diz “Cerveja! Ta aí uma solução provisória” e corre até a geladeira à procura de uma cerveja para beber. Dessa forma, nota-se que por não conseguir lidar com a frustração de estar desempregado, o personagem se deprime e recorre à bebida como forma de escape para o problema que está enfrentando. Após isso, Homer escreve uma carta de despedida para sua família com a seguinte frase “Espero apenas lhe dar um melhor exemplo morto do que dei em vida...”. Como mostrado nessa última cena apresentada, o personagem às vezes chega a ser individualista, pois Homer pensa em pôr um fim na própria vida como forma de alívio do próprio sofrimento, sem levar em consideração a sua situação familiar com esposa e filhos que ainda são pequenos e precisam do pai como base afetiva. Podemos afirmar que Homer é um indivíduo que se entrega aos prazeres do corpo por possuir imaturidade emocional. Para ele, lidar com suas decepções é algo muito difícil e por possuir fixações orais, ele recorre ao pessimismo, a bebida e ao apetite exagerado como sendo uma maneira mais fácil de “esquecer”, pelo menos por um momento, a situação que está vivenciando.



  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O grupo apresentou dificuldade de entendimento nas leituras dos textos que foram usados como base. Apesar disso, a associação das características do personagem apresentado em discussão com a fase oral foi feita de forma rápida e sem grandes embaraços.

  1. REFERÊNCIAS

D’ANDREA, F. F. Desenvolvimento da Personalidade. In: ______. Caráter oral. Rio de Janeiro: 16ª ed, 2003. p. 43-44
MERLEAU-PONTY, M. Contribuições dos sucessores de Freud. In: ______. Merleau-ponty na Sorbonne: Resumos de cursos – Psicossociologia e filosofia. Campinas, SP: Papirus, 1990. p. 98-105.
REIS, A. A.; MAGALHÃES, L. M. A.; GONÇALVES, W. L. Personalidade e caráter. In: ______. Teorias da Personalidade em Freud, Reich e Jung. São Paulo: EPU, 1984. (Temas básicos em Psicologia, 7). p. 24-41
ZIMERMAN, D. E. As fases do desenvolvimento. In: ______. Fundamentos psicanalíticos. Porto Alegre: Artmed, 1999. p. 92-95.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Doador de Memórias e o Despertar para a Vida




O filme "O Doador de Memórias" ou "The Giver" é uma adaptação literária. É ficção científica mas também é um drama, como classificam por aí....O filme é de 2014.

Sinopse Adorocinema: A história passa-se em uma pequena comunidade, a qual vive em um mundo aparentemente ideal, sem doenças nem guerras, mas também sem sentimentos. Uma pessoa é encarregada a armazenar as memórias de forma a poupar os demais habitantes do sofrimento e também guiá-los com sua sabedoria. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e agora cabe ao jovem Jonas, que precisa passar por um duro treinamento para provar que é digno da responsabilidade. 

Trailer: Doador de Memórias



Estava rodando os canais e o filme começou a passar. Como já haviam me dito que era um filme bacana, resolvi conferir...e é mesmo!!! É muito bacana!!

Atenção!! Há alguns Spoilers!!
O garoto Jonas é o escolhido para passar pelo treinamento com o ancião que é quem retém as memórias de toda a humanidade. Quando se inicia o treinamento, há algumas instruções que Jonas deve seguir: entre elas, não tomar as injeções anestésicas da manhã antes de ir para o treino.
Seu treinamento é conhecer memórias, despertar emoções e conhecer o passado da humanidade. Ele vai até a casa do ancião e lá fazem o treinamento juntos, unidos. O ancião mostra a ele o mundo, as memórias de toda a nossa humanidade. Essa parte do filme é maravilhosa. Na realidade, o que quero dizer que esse processo é maravilhoso. Se o ser humano se propõe a isso, ele pode estar se propondo a viver, a despertar para a vida.

Nas entrelinhas e de forma escancarada o mundo de hoje prega a felicidade e a anestesia da dor, seja ela física ou psíquica. Quem não gostaria de um analgésico da dor da alma? Da dor psíquica? Da dor de amar? Da dor da indiferença? Da dor do abandono? Essa dor é das entranhas.....e é doída, é profunda. Mas não há remédio pra ela aqui no nosso mundo. Há mecanismos para evitá-la, para negá-la, para fugir dela.
Mas na comunidade do filme essa dor foi anestesiada há muito tempo e vivem sem dor, mas junto a ela as outras emoções também foram: a alegria não existe, a admiração não existe...o amor não existe. O grande sentimento transformador, a emoção-motor.

Em uma cena em que o personagem Jonas está com suas emoções despertando, ele diz ao pai: Pai, você me ama?
Sua mãe, confusa e brava, olha pra ele e diz: Jonas!! O que é isso? Precisão de Linguagem!!
O pai responde: Filho, tenho orgulho de suas conquistas e gosto de você!

E eu ali assistindo: Geeenteeeee, como viver sem emoções???? 
Pois é!! Mas em algumas situações e circunstâncias de sofrimento e dor é assim que se vive mesmo! Sem emoções, se protegendo de tudo, se anestesiado de tudo. É pra conseguir sobrevier que fazemos isso. Sim, eu, você, nós todos fazemos. 

Uma outra coisa que é uma sacada bacana é que o filme começa preto e branco, representando a mesmice, o preto no branco, a não abertura. E ao longo do processo de despertar das emoções de Jonas, o filme ganha cor....até ficar vibrante!! Juntamente com as imagens e as emoções que o personagem vai experimentando. É envolvente.

O processo de despertar para a vida do personagem Jonas me lembra também ao processo de análise. Não só porque ele e o Doador sentam frente a frente em poltronas em uma sala-setting Não, não só por isso. Mas também porque quando o analisando junto com seu analista (uma dupla, um par que possuem uma relação de aliança que vai além do que muitas vezes a teoria explica) entra em contato com aspectos próprios que estavam lá para ser conhecidos, e então pode revitalizar esses aspectos, conteúdos guardados, esquecidos, confusos ou desconhecidos é como um despertar. É sofrido, é dolorido, mas também é um processo de desenvolvimento e de despertar de vida e para a vida.

Penso que o filme é muito mais do que uma história para adolescentes!!
É preciso olhar além do que se vê!!
Bom, fica a dica aí pessoal.
Bjos e bons filmes para todos nós!!


domingo, 12 de julho de 2015

Meus Psicopatas Favoritos! - Introdução

Foto 1. 
Antes de começar, já adianto que, conforme for falando, linkarei aqui os artigos a partir dos quais fiz esses apontamentos (creio que não temos necessidade de seguir as normas ABNT ou APA em um blog...). Outra coisa, preciso fazer uma introdução teórica antes de falar do cinema, então tenham paciência.

Existe uma diferença interessante entre psicopatologias como as histerias, as neuroses obsessivas (como o TOC), e os transtornos de personalidade. Estes não são propriamente doenças, mas "anomalias no desenvolvimento psíquico" (vide este artigo). Ou seja, são modificações generalizadas, que abrangem inúmeros aspectos da personalidade dos sujeitos. Tanto o CID quando o DSM apresentam algumas classificações acerca de vários tipos de transtornos de personalidade, mas esse não é nosso assunto principal. Hoje gostaria de falar de uma série de comportamentos específicos, considerados anti-sociais. Ou seja, pessoas que atuam de forma prejudicial ao outro, sem que haja arrependimentos, culpas, ou qualquer sentimento de empatia. São os chamados psicopatas.

Foto 2.
Na verdade, se tivermos que ser bem científicos, temos que aprender que tais comportamentos envolvem diferentes transtornos de personalidade. Muitas pessoas costumam confundir a psicopatia com a sociopatia e o transtorno de personalidade antisocial (como pode ser lido aqui). No DSM, o primeiro se falava em dois tipos: a psicopatia e o transtorno de personalidade sociopática, que foi posteriormente substituído por Transtorno de personalidade Antissocial (TPAS). A psicopatia e o TPAS são diferentes, mas uma parte dos casos de TPAS pode ser considerada casos que envolve psicopatia. A diferença está é que o Psicopata possui quatro dimensões (conforme este artigo):

 - Interpessoal: "superficialidade e manipulação das relações, auto-estima grandiosa e mentira patológica". Percebe-se que, além de ele não conseguir estabelecer relações profundas, ele é profundamente narcisista, crê na sua infalibilidade e no seu poder onipotente;
 - afetiva: "falta de remorso, afeto superficial, falta de empatia e não-aceitação de responsabilidade pelos próprios atos". Ou seja, não há muita empatia pelo outro, ele simplesmente não consegue sentir o que o outro sente como consequência de seus atos;
 - estilo de vida: "busca de sensação, impulsividade, irresponsabilidade, parasitismo em relação aos outros e falta de objetivos realistas". Esse aspecto é importante, há pouco ou nenhum controle dos impulsos, característica importante para a manutenção da vida social;
 - anti-social: "pouco controle do comportamento, problemas de comportamento precoces, delinquência na juventude, versatilidade criminosa e revogação de liberdade condicional". Aqui são aspectos sociais, ou seja, os psicopatas tem pouca capacidade de se integrar na vida social, e acumulam um histórico de atos considerados criminosos.


Foto 3.
O conceito de psicopatia está ligado à perversão, que se refere, segundo à Psicanálise, a uma forma muito específica de estrutura de personalidade. Para falar disso, vou falar um pouco da leitura lacaniana da obra de Freud.

Para Lacan, a personalidade é uma estrutura, ou seja, um conjunto estável de elementos que se articulam e dão uma características particular à forma de agir, pensar, sentir e desejar de uma pessoa.  A explicação que vou dar aqui é bem rápida e incompleta, pois não é esse o objetivo do texto. Se pretendem saber mais sobre isso, peço que procurem textos sobre a teoria sexual em Freud. Essa estrutura se forma a partir da resolução do complexo de Édipo, e depende da forma como a criança lida com a angústia de castração. Durante a fase edípica, a criança começa a perceber uma diferença muito clara entre ela e outras crianças e mesmo entre adultos, que é a diferença sexual. O menino repara que há pessoas, as mulheres, que não tem um pênis, e as meninas se dão conta de que não o tem ou de que ele é muito pequeno (o clitóris). Há uma fantasia coletiva de que todo mundo tem um pênis, e Freud percebeu isso analisando inúmeros sonhos e fantasias infantis. Ao se dar conta dessa diferença, a criança interpreta a falta de pênis como castração, ou seja, quem não o tem perdeu porque alguém lhe cortou fora esse órgão. Ao se deparar com a possibilidade de perder o pênis, a criança passa por uma forma específica de angústia, chamada de angústia de castração. 

Foto 4: Só de olhar a foto minha angústia de castração voltou...
A castração parece ser para ela uma punição muito severa contra algo que ela fez. Como ela está na fase edípica, geralmente ela associa a castração como uma ação possível de ser feita (no caso do menino) ou já concretizada (no caso da menina) pelo pai do mesmo sexo, com quem ela disputa o amor do pai do sexo oposto. Na resolução normal do Édipo, o menino, com medo da castração, abandona o amor pela mãe e entra na fase de latência, para depois substituir a figura materna por outra. No caso da menina, ela substitui o desejo de ter um pênis pelo de ter um filho do pai, para depois abandonar esses desejos, entrar na latência, e depois substituir o pai por outro homem.

A imagem que geralmente desperta na criança a angústia de castração é a de uma mulher sem pênis. Geralmente a mãe, pois essa, o seu primeiro foco de amor, é considerada como portadora de objetos muito preciosos, incluindo o falo. Pode-se dizer que a criança pode enfrentar o medo da castração com base em três mecanismos diferentes de defesa psicológica. Cada um deles dá base a uma estrutura de personalidade diferente:

 - Recalque: Quanto maior é a capacidade de sublimação, ou seja, de desviar a energia sexual dessas fantasias para atividades não-sexuais (sociais, artísticas, sonhos, atos falhos,etc.), mais saudável sera a pessoa. Acho que seria difícil falar em uma pessoa que fosse completamente normal, que tivesse sublimado todos os desejos sem consequências.Geralmente parte dos desejos terminam recalcados. No recalque, as fantasias infantis a respeito da mulher fálica, o desejo pela mãe, e todos os sentimentos ligados a isso são recalcados, isto é, guardados no inconsciente. Posteriormente, eles retornam para a consciência através de sintomas. O indivíduo tem o que se chama de estrutura neurótica de personalidade. Fantasiam inconscientemente sobre essa sexualidade infantil, demonstram angústias e ansiedades em relação a alguns aspectos de sua vida. Não estamos falando aqui de uma doença. A pessoa pode sentir angústia sem ter um problema psicológico grave. Mas se ela vier a ter alguma doença psicológica, geralmente ela terá alguma neurose (TOC, histeria, fobias, transtorno de ansiedade, etc.);

 - Forclusão: Quando a criança não consegue romper com o universo infantil e a ligação simbiótica com a mãe, ela quebra então o vínculo com a realidade. Nesse caso, para Lacan, ela nega o "Nome do Pai", termo que se refere à lei paterna que instaura a separação entre mãe e bebê e abre a possibilidade da criança entrar no simbólico. Ou seja, ela não consegue aguentar a angústia de castração, então ela rompe com a realidade para não encaram o fato da "mãe castrada". A estrutura de personalidade ligada a essa defesa é chamada de psicótica, e pode levar a formação de sintomas psicóticos, como alucinações e delírios.

 - Denegação: É aqui que se fala mais propriamente da estrutura de personalidade perversa. Frente a evidência da ausência do falo feminino, a angústia de castração é tão forte que a criança desvia o olhar, e fixa-se no primeiro objeto que possa usar para "denegar" essa falta. Essa é a explicação de Freud para o fetichismo, uma das formas de sexualidade mais utilizadas para compreender o que é perversão. Seja uma lingerie, seja o pé, um salto-alto, cabelos, objetos fálicos, etc, algo ocupa o lugar desse pênis ausente. Por isso Lacan fala que o perverso coloca um véu sobre a falta - ele sabe e não sabe que lá não têm um pênis, oscila entre essas duas posições, e oscila também em relação a Lei paterna castradora. Ele a ignora, "finge que não vê"...

Foto 5:

Entretanto, com a mudança de nossa sociedade, várias formas de sexualidade foram deixando de ser consideradas patológicas. A homossexualidade, por exemplo, deixou de ser considerada patologia, e o fetichismo, de graus mais brandos, deixou de ser considerado doença, e passou a fazer parte da sexualidade normal. Exceto algumas formas, como a pedofilia, já que ela envolve relações sexuais com crianças e adolescentes, considerados ainda incapazes para decidir livremente por ter relações com alguém, e a relação, seja forçada ou seja por persuasão, acaba levando a traumas graves.

Mas a perversão ganhou um quadro mais geral. Vamos nos basear na sua característica oscilante en relação a lei paterna. Ela mostra duas atitudes conjuntas, uma aparentemente normal, que consegue viver dentro da sociedade e respeitando seus limites, e outra perversa, que não satisfaz livremente seus desejos. Freud disse uma vez que a perversão é o inverso da neurose. Aquilo que o neurótico apenas fantasia em seu inconsciente, o perverso faz na realidade. Não há controle de impulsos.

O que se tem aí é uma nova concepção de perversão, que está associada a psicopatia. Falta de empatia, impulsividade, comportamento antisociais, superficialidade das relações. O psicopata é uma pessoa que parece, em parte, totalmente integrada à sociedade, mas que, quando algo diz respeito a seus desejos sexuais e agressivos, ele age sem pensar nos efeitos que isso pode causar no outro. 

Foto 6: Parece, mas não é...
O cinema se interessa bastante pela psicopatia. Entretanto, muitos personagens considerados psicopatas não poderiam ser completamente enquadrados nessa estrutura de personalidade. Pode acompanhar, por exemplo, essa lista aqui. e você percebe que o cinema vê o psicopata de outro modo. Geralmente um louco, que aparenta ser comum. Ms sim um criminoso, serial-killer, que arrasta uma série de mortes muito bem arquitetadas.

O que precisamos pensar é que um psicopata pode morar bem ao seu lado. Pode ser seu parente. E até pode ser você mesmo. Mas você pode me dizer: "Eu? Como assim? nunca matei, torturei, nem fiz risoto com o rim de ninguém!" (esse último é referência ao Hannibal, meu psicopata predileto hehehehe).

Foto 7: Está com fome?
Segundo Déborah Pimentel (nesse artigo aqui), pode-se falar de uma "Psicopatia da vida cotidiana". De acordo com ela, em determinadas épocas e lugares, algumas patologias e estruturas de personalidade prevalecem. Na época de Freud, as neuroses, principalmente a histeria, eram muito comuns. A depressão já foi e ainda é uma das mais terríveis patologias de nossa época. Entretanto, para ela, uma outra patologia se tornou comum... justamente a psicopatia.

Atualmente, as crianças são impedidas de desejar. O que se quer dizer com isso? Que elas não tem o que querem? Que as crianças são proibidas, controladas, que seus pais nada fazem por elas, a ponto de que elas não tem condições de desejar algo diferente? Na verdade, apesar de que em muitos lugares as crianças vivam em condições tão miseráveis ou com tamanha violência que pouco sobra para elas em termos de desejo, o que ocorre hoje, na maioria das famílias com as quais temos contato, é o oposto: as crianças não desejam, pois os pais não lhes dão tempo para isso. Para haver desejo, é preciso um espaço, no qual a criança sinta que algo lhe falte, e assim busque alguma coisa ou atividade que possa suprir essa falta. Mas o que os pais fazem? Não deixam a criança sentir falta. Assim que pede, que chora, que aponte o dedo para o que quer, ela o tem. 

Foto 8.
Vive-se em uma sociedade com jovens que cada vez mais tem menos capacidade de lidar com as frustrações da vida, pois não houve tempo de aprender a lidar com elas quando crianças. Uma criança que aprende que ão tem tudo o que quer quando e como quer, com o tempo percebe que na vida tem que se negociar, que aceitar condições, e muitas vezes adiar ou deixar de lado alguns desejos. Isso se torna cada vez mais difícil. 

A autora fala que estamos cada vez mais narcisistas, menos empáticos. Não há remorsos, só se busca a satisfação individual. Há uma dessensibilização da desgraça, do crime, da violência, da morte - tudo passa a ser cotidiano. E a virtualização das relações, através da internet e principalmente das redes sociais, criaram novas formas de violência e de distanciamento do outro. E há plena consciência dessa violência, assistida ou mesmo perpetrada, o que caracteriza ainda mais o ato como perverso. Há, portanto, uma epidemia de psicopatia, ou seja, nossa sociedade está cada vez mais perversa, desde sua estrutura político-econômica até as relações sociais mais íntimas. Por isso, cuidado: o perverso pode ser você!

Foto 9.
Bom agora que todos estamos olhando-se no espelho, nas janelas, no Facebook, buscando ver se é ou quem é um "psicopata cotidiano", podemos voltar a que nos interessa (primeiro a gente joga a bomba e depois muda de assunto hehehehe). Esse post é introdutório, para que eu possa falar, nas próximas postagens, sobre meus perversos favoritos. Ou seja, vamos levantar filmes e personagens que marcaram o cinema e principalmente minha vida de cinéfilo, e que possuem essa características peculiar da Psicopatia.

Para encerrar, que tal as fotos espalhadas pelos posts. Elas representam alguns dos psicopatas mais famosos do cinema. Você consegue identificar o filme/série de cada foto? Poste um comentário com sua resposta! E não se esqueça de dizer o número da foto!

Abraço a todos!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Malena, ou o aprendizado do amor


Malèna é um filme italiano dirigido por Giuseppe Tornatore, que narra o encontro avassalador de Renato, um garoto de 13 anos, com Malèna, esposa de um combatente italiano na Segunda Guerra mundial. O filme toma como linha de narração o encontro e a paixão que Renato nutre por ela, e como essa relação (imaginária) o modifica em uma das épocas mais conturbadas da vida de uma pessoa, a adolescência.

O filme pode ser discutido por algumas vertentes, todas muito interessantes: a dinâmica social extremamente autoritária da cidade, que manteve Malèna entre a segregação social e o centro atrator das atenções; a questão da guerra, e de como ela atravessa o cotidiano das pessoas. Entretanto, preferi tomar aqui um outro caminho, que é compreender a passagem de Renato para a vida adulta, o que foi efetuado através de sua paixão por ela.

É interessante ressaltar aqui como a sociedade italiana da época demarcava claramente a diferença entre um menino e um homem: as calças curtas. Enquanto usa bermudas, Renato é tratado como um garoto, e não tem nenhuma voz social, nem no seu grupo de amigos. Ele anseia por conseguir calças compridas, e chega a roubar um par de seu pai, que guardava para seu enterro, para que o alfaiate pudesse ajustar para ele. 

Entretanto, apesar das bermudas marcarem socialmente esse estado infantil, pode-se perceber que Renato, psicologicamente, mantém formas afetivas infantis, o que é muito comum nessa idade. O que hoje chamamos de pré-adolescente nada mais é do que uma criança que começa a sentir a emergência de um amadurecimento biológico (no filme, quando Renato vê Malèna pela primeira vez percebe uma ereção, ou que ressalta a consciência que ele adquire de seu despertar pubertário). Entretanto, ele ainda carrega as formas de amor pautadas na primeira infância.

Segundo Freud, nas primeiras fases do desenvolvimento infantil de um menino, principalmente no momento do Complexo de Édipo, pode-se perceber nele um sentimento de amor onipotente pela mãe. A criança coloca-se na possibilidade, imaginária, de ter uma relação de igual para igual com sua mãe, antecipando-se assim as formas adultas de relação afetiva.

Entretanto, na criança, esse amor é onipotente, recheado de fantasias, centrado em uma idealização da relação e do prazer que se pode obter com ela. A relação de Renato com Malèna é pautada nessa forma de amor infantil. Ele se imagina com ela, tendo como base de suas fantasias inúmeras cenas de filmes em preto-e-branco. 

Uma cena bem interessante sobre suas fantasias onipotentes possui ainda um toque cômico. Enquanto se masturba na cama, vendo-se em diversas cenas de filmes clássicos como par romântico de Malèna, se vê uma cena de filme de faroeste, no qual ele é o pistoleiro que beija Malèna, a donzela em perigo, pouco depois de resgatá-la e durante um tiroteio, ouve ela lhe dizer: "Renato, você tem a maior pistola do oeste!". Está claro aí a referência fálica, narcísica, acerca da potência sexual e do poder que possui para conquistar Malèna.

Por outro lado, na realidade, ele a persegue, espreita pelos cantos a observá-la, rouba-lhe uma calcinha, mas nunca fala diretamente com ela. Essa é a dualidade do amor infantil, pleno na fantasia, e frustrado na realidade. A criança, durante a fase do complexo de Édipo, termina por se dar conta, inconscientemente, da impossibilidade de realizar seu amor por sua mãe, pela dificuldade de enfrentar o pai, já que este é mais forte, sem falar que também o ama. A criança termina por subjulgar esse amor, recalcado no inconsciente, e que se torna um protótipo de novas formas de relação.

A Adolescência, mais do que uma maturidade biológica, é o período no qual vários dilemas infantis retornam. Ao ver-se capaz de ter uma relação sexual, o adolescente sente inconscientemente que seria capaz de concretizar suas fantasias infantis, e estas ganham força e buscam a consciência. Malèna é quem trás Renato novamente para os dilemas do amor, e é através dessa relação que ele aprende a forma adulta de amor.

Diferente do amor infantil, intenso, absoluto, imaginário, o amor adulto tende a levar em consideração as limitações da realidade, é mais pautado na doação, na ternura. Quando o marido de Malèna, que havia sido dado como morto mas que estava preso durante a guerra, retorna à cidade, ele não encontra sua esposa, que havia sido expulsa pelos cidadãos, devido as relações, mais presumidas que reais, dela com homens casados. Renato, ao ver que ninguém fala a ele sobre o triste destino de Malèna, abre mão pela primeira vez de seu ciúme e da relação possessiva que tinha com ela (que sempre se dava de fora culta, quando ele realizava pequenas punições aos que falavam mal dela), e lhe envia uma carta, dizendo onde ela estava.

O que se percebe é um crescimento afetivo de Renato. Ele aceita o fato de que não há possibilidade de relação real com Malèna, e desenvolve por ela uma nova forma de amar, mais pautada na doação de si do que na possessão do outro. Isso a ponto de se preocupar mais com o bem-estar de Malèna, que acaba encontrando seu marido e voltando a viver com ele.

Espero que o texto tenha esclarecido um pouco sobre o que quis dizer sobre "o aprendizado do amor". A maioria das músicas românticas, como os sertanejos universitários, por exemplo, exaltam formas de amor que são idealizadas, na qual um vive para o outro, de forma pura, plena, como se "fossem um só". 

Sinceramente, eu acho que, se há um só, não há amor, não há relação, há uma fusão. O que o filme mostra é que essa alternativa idealizada e onipotente de amor, na verdade, tem raízes pronfundas nas primeiras conexões afetivas de cada um. Para se aprender a amar, é preciso, primeiro, aceitar a frustração que é perceber que o outro é e sempre será um outro, com seus gostos, com suas qualidades e com seus defeitos. Toda relação está marcada pela impossibilidade dessa fusão, desse "nós somos um só", e é isso que garante que haja uma relação, uma troca, uma verdadeira doação. Quando doamos, nunca doamos tudo: damos nosso amor, mas também amamos outras pessoas e coisas. E o outro também. Assim, o que pude perceber com Renato é que o Amor se faz belo e tão importante na vida das pessoas porque ele é recheado de uma parcela de dor, de sofrimento, que é o que nos mantém "dois", nos mantém unidos e separados, ao mesmo tempo.